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19 junho 2026

Mata-mouros reformado

Já o tinha referido aqui, há quase 14 anos, como o aguerrido Santiago Matamoros fora reconvertido em simples jardineiro. O que lá escrevi mantém-se de atualidade.

O culto de Santiago e a suposta descoberta dos seus restos mortais na Galiza está intimamente ligado e alimentado pela campanha de reconquista, à qual o apóstolo serviu de invocação e estandarte. Deu até o nome a uma das principais ordens religiosas guerreiras da península Ibérica.

Obviamente que entre os milhares de peregrinos que hoje demandam Compostela, poucos o farão por devoção religiosa e talvez nenhum para pedir apoio em guerras contra infiéis. No entanto, a história é a história.

Um destes dias ao discutir o assunto com um amigo que planeava ir ao tal “Campo de Estrelas”, encomendei-lhe o serviço de investigar como iam as flores que delicadamente davam abrigo visual às vítimas do mata-mouros. A resposta é que na catedral já não há apóstolo guerreiro. A estatua em questão foi discretamente trasladada para o museu diocesano, certamente muito menos vista do que no lugar original.

Podemos entender que para a generalidade dos peregrinos o ímpeto guerreiro do apóstolo (ou da imagem dele criada) não seja o que estão à espera de ver quando concluem a sua romagem. Mas, de que serve assepsiar a história? Provavelmente uma boa parte dos muçulmanos mais suscetíveis nem sequer franquearão o pórtico da catedral, mas… não seria bonito poder dizer ombro-a-ombro, cristão e mouro, felizmente já não estamos nestes tempos?

Entretanto, mesmo em frente, do outro lado da praça do Obradoiro, no edifício do “Concello”, equivalente da Câmara Municipal, está exposta uma bandeira da Palestina. Sim, que há gente inocente que lá sofre, mas e os outros? Na Ucrânia, Congo, Síria, Sudão, Curdistão, Myanmar, Xinjiang e a lista continua. Será o fato de não serem vítimas de Israel que os torna menos merecedores de solidariedade?

Já agora, só falta chamar palestiniano a Tiago. Ao fim e ao cabo, ele foi morto por Judeus… E a reconquista, que o seu culto patrocinou, sendo que o seu contexto em Braga ou Lugo é muito diferente de Sevilha ou Córdova, foi uma luta contra um invasor de outra etnia e de outra religião. Podemos estabelecer alguns paralelos…

Em resumo, os belgas que terraplanem a colina de Waterloo para não lembrar guerras passadas e provocar os franceses… estes que revejam e apaguem os nomes sensíveis inscritos no seu Arco do Triunfo …  e a lista por aqui seria longa. Mesmo o nosso Mosteiro da Batalha pode ser coisa de incomodar os nuestros hermanos. Talvez seja melhor pensar construir uma barreira visual à volta.

Quando se quer construir um futuro apagando o passado, o edifício não resulta robusto.

 

16 junho 2026

Onde para a laicidade?


Durante muito tempo, assumir a laicidade como um pilar básico na organização da nossa sociedade foi praticamente consensual e levantando poucas dúvidas quanto ao respetivo significado. Como Cristo disse há uns séculos: A César o que é de César. Como se disse à igreja católica há mais de um século: podem continuar a celebrar batismos, mas nenhum cidadão será menos cidadão só por não ter tido o crânio regado numa pia batismal.

O termo voltou, entretanto, ao primeiro plano, arrastando polémicas e controvérsias quanto à sua interpretação. Em França, que funciona um pouco como balão de ensaio para muitas questões sociais, agita-se e recorda-se uma lei de 1905 como grande especificidade “religiosa” do país de Voltaire.

Nos inícios do século XX, quando se legislava quanto à laicidade, do outro lado da barricada estava a igreja católica. Com maior ou menor razoabilidade, grandes ou pequenas dores de parto, os seus princípios consolidaram-se e o assunto deixou de ser tema de atualidade.

A mudança acontece quando aparece uma agenda de islamização das instituições e do espaço público. Face ao perigo (sim, é um perigo!) representado, achou-se por bem utilizar como travão a tal lei de 1905. Vocês não podem avançar por aí, porque a sociedade não pode ser islamizada, nem cristianizada, nem “nanada”. Até temos uma lei antiga que sacraliza o carácter laico do espaço público. Não foi redigida agora em cima do joelho especificamente contra o islão. Entendo que estamos em presença de uma guerra, mas a ser travada no campo de batalha errado.

Há alguns anos, passei em Nantes na segunda metade de dezembro. Havia umas iluminações no espaço público, mas não eram de Natal. Chamavam-lhe Viagem no Inverno e os motivos eram uns caixotes coloridos, sem gosto nem fantasia… é por aqui que queremos ir nesse caminho para uma laicidade radical? Para uma sociedade sem gosto e sem carácter, desinfetada e esterilizada?

Um crucifixo na parede de uma escola pública é algo a banir, certo! Uma jovem que usa um fio ao pescoço e na ponta um pequeno crucifixo é caso de polícia? Se não é, então a colega do lado poderá usar uma cruz de David ou um crescente islâmico. Agora, uma jovem embrulhar a cabeça num pano, que amarra nos queixos, obrigada socialmente a uma imagem assexuada, porque que quem sai à rua com os cabelos soltos é vista e tratada como uma vadia, está certo? Está certo que precise de o fazer apenas para não ser criticada e incomodada?

Se em 1900 o “inimigo” era a igreja católica, hoje é outro. Talvez seja um pouco ingénuo pensar que podemos travar esta batalha com as mesmas armas do século passado. O contexto cultural subjacente ao projeto de poder católico de então é muito diferente do islâmico atual.

O que é necessário dizer (ou legislar) sem complexos é: Meus senhores, o que pedem é incompatível com os valores da nossa sociedade. Não sendo perfeita é largamente superior em termos de prosperidade, bem-estar e felicidade dos seus cidadãos àquelas em que os vossos princípios imperam. E ponto final (ou não).

 Existem dois fatores que concorrem a desequilibrar as forças nesta batalha. São a demografia e a democracia. Infelizmente soma-se um efeito amplificador de alguns políticos para os quais: inimigo do meu inimigo, meu aliado será. Esses políticos progressistas, prontos a achar irmandade com causas obscuras, poderão olhar para o caso do Irão. Onde ficaram depois da revolução os seus confrades aliados dos islamistas e o atual estado de liberdade e de igualdade que se vive no país, após ter sido salvo das maléficas influências ocidentais.

Sim, há uma guerra em curso, mas combatê-la apenas no campo da laicidade não é eficaz nem suficiente.

11 junho 2026

Anticlerical e laicidade


Foi Miguel Unamuno quem me chamou a atenção para Guerra Junqueiro. Um espanhol? Quem diria! Nem tanto. Unamuno é uma das mais ibéricas figuras culturais da península e entre a Salamanca onde ele finou e Freixo de Espada à Cinta onde Junqueiro nasceu, a distância, geográfica e não só, é menor do que entre elas e a capital do respetivo reino.

Como o português, Unamuno foi um ativista da mudança desencantado pelo resultado das revoluções que advogaram, o espanhol por duas vezes.

Uma das obras de referência de Guerra Junqueiro é este “A Velhice do Padre Eterno”, muito, muitíssimo anticlerical. Pode-se argumentar que ele tem razão, em parte. Em parte, o clero, e especialmente naquela altura, era merecedor dos seus mimos, ironias e sarcasmos. Certamente outros clérigos haveria íntegros e bem-intencionados.

Uma diferença fundamental entre a igreja de há um século e meio e a atual é hoje ter muito menos poder, fora daquilo que é o âmbito fundamental da religião. Acredito que os esforços, em parte brutais e excessivos, de travão às fainas sociais das sotainas, isso proporcionaram. Haveria outras formas, mais justas? Não sei.

Uma coisa sei e com boa certeza. Há uma religião que está a precisar de algum tratamento de choque análogo.

E, como ironia, transcrevo um dos poemas do livro, objeto da ilustração de capa acima representada.

PARASITAS

No meio duma feira, uns poucos de palhaços

Andavam a mostrar, em cima dum jumento,

Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,

Aborto que lhes dava um grande rendimento.

 

Os magros histriões, hipócritas, devassos,

Exploravam assim a flor do sentimento,

E o monstro arregalava os grandes olhos baços,

Uns olhos sem calor e sem entendimento.

 

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos;

Deram esmola até mendigos quase nus.

E eu, ao ver esse quadro, apóstolos romanos,

 

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,

Que andais pelo universo, há mil e tantos anos,

Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

10 junho 2026

A nossa Pátria


Ouvi recentemente uma figura das artes brasileiras argumentar que, após estudar e aprender várias línguas latinas, descobriu a sua língua, o brasileiro, supostamente suficientemente distinto do português para dever ser considerado uma língua autónoma. Quando esperava algum desenvolvimento e exemplos concretos dessa diferença, argumentou que as pessoas no Brasil sentiam orgulho em falar em música brasileira e outros campos onde se usasse o mesmo adjetivo, mas referir a sua língua como português, não agradava a muita gente.

Sendo assim, parece que se trata de mudar a capa da gramática, ficando o povo feliz, liberto dessa ligação ao antigo colonizador, que, aparentemente, ao dar independência ao país, terá lançado uma feitiçaria poderosa que dois séculos depois ainda limita o desenvolvimento do país.

Eduardo Agualusa veio mais recentemente tocar na mesma tecla, sugerindo o a mudança do nome do idioma para “língua geral”, expressão usada há vários séculos para as línguas mestiças utilizadas no Brasil. Parece tratar-se de um objetivo cosmético de apagar a assinatura da “supremacia cultural europeia”, colonizadora e maligna.

Como dizia Fernando Pessoa, “A minha Pátria é a língua portuguesa” e esse património é rico. No dia de Camões em que, mais do que Portugal, se celebra um dos maiores expoentes da língua portuguesa, o dia deveria ser de festa para todos aqueles que devem uma boa parte da sua herança cultural ao genial poeta.

Se há quem tenha problemas e angústias em assumir esse legado, incluindo eventualmente o senhor Aguageral, que tentem resolver o seu problema de alguma forma, mas sem fazer figuras ridículas.

08 junho 2026

A Ditosa Pátria


Entre “Os Lusíadas” de Luís de Camões e a “Mensagem” de Fernando Pessoa, fica a “Pátria” de Guerra Junqueiro. Em contextos e estilos muito diferentes, há algo em comum nestas três magnificas obras poéticas. O amor dos seus geniais autores pela sua ditosa Pátria, numa declaração inquieta e pujante, face a uma realidade decadente.

Em Camões temos a epopeia e o heroísmo, em Pessoa o fantástico e o misticismo, em Junqueiro o desespero e a loucura. O pano de fundo da “Pátria” é o do momento da aceitação do ultimato inglês de 1890 e a respetiva gestão por um rei, D. Carlos, apresentado como mundano, socialmente insensível, incompetente e irresponsável.

Este episódio tem características únicas e irrepetíveis. Participamos em poucas guerras, muito menos saindo delas como perdedores, pagando por isso humilhações deste tipo. Ocorre também num momento de esgotamento do regime monárquico. D. Carlos era muito diferente do seu tio Bem Amado, D. Pedro V. Os republicanos aproveitaram para capitalizar o descontentamento provocado e mobilizar vontades para a mudança de regime.

Guerra Junqueiro acreditava que a sorte do país seria diferente sob um regime republicano e na teoria teria razão. É potencialmente mais seletivo ao mérito, mais justo e assim, supostamente, mais próspero. Lutou, com a pena, por esse ideal, mas o resultado da Primeira República, muito diferente do modelo cívico de elevação moral que ele imaginara, rapidamente o desiludiu. As lutas partidárias, corrupção e violência, a começar pelo regicídio, amarguraram-no a ponto de refazer uma nova versão mais macia da “Pátria”, esta sem interesse.

Hoje não corremos o risco de receber ultimatos humilhantes e as teorias disruptivas de mudança de regime também não estão muito pujantes com uma revolução possível ao virar da esquina. No entanto, a incapacidade de a liderança do regime ser um modelo cívico de elevação mantém-se, somando-se os casos desde Primeiros-Ministros a Presidentes de Junta de Freguesia.

Como a ditosa Pátria vai sair e para onde irá, não sabemos, mas corre o risco de enlouquecer à imagem do “Doido” de Junqueiro e sabe-se lá o que pode fazer um louco.


06 junho 2026

Os refugiados eternos

No processo de Independência das colónias portugueses de África, cerca de 500 mil portugueses regressarem à metrópole. Ficaram conhecidos por “retornados”. Foi criado um organismo designado IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais) para apoiar esses refugiados à chegada, já que nem todos viriam com diamantes cosidos nas bainhas das calças.

Independente das justiças e injustiças ocorridas na gestão desse processo e se a duração foi curta ou excessiva, em 1975 era consensual a necessidade de um mecanismo de apoio. Se hoje ainda houvesse netos de retornados a viverem em tendas, em campos de campismo, subsidiados por um ainda existente IARN, isso já seria muito difícil de entender e justificar.

A eternização de gerações de refugiados por longas décadas é obviamente um absurdo, fruto de uma lógica onde esses seres humanos são ferramentas e vítimas de uma agenda que não é a dos seus interesses humanos. Existem dois bons exemplos dessas situações atualmente. A famosa dos palestinianos, que dura desde a independência de Israel de1948, onde alguns já estarão para lá de netos… A outra, menos conhecida, é a dos Saarauis, “refugiados” ainda presos em Tindouf, na Argélia desde 1975, data da invasão do Saara Ocidental por Marrocos. Não há aqui espaço para desenvolver os comos e porquês destes absurdos, apenas referir que algumas razões haverá para esta pobre gente viver miseravelmente e após tanto tempo ainda não estar de alguma forma integrada.

 

03 junho 2026

Gostos…


Não se discutem. Gosto de histórias com pessoas, suas particularidades e subtilezas, mais de que de construções filosóficas e complexas. Acredito que estas pecam sempre um pouco por desalinhamento no significado das palavras. Quando se sai para muitas voltas pelo abstrato não é garantido que a abstração e respetivas evocações sejam lidas de forma equivalente entre quem escreve e quem lê.  Entendo que a filosofia é mais interessante e fértil dialogada do que monologada.

Passando aos diálogos, gosto das histórias com muito discurso direto. Penso ser a forma mais eficaz e rica de traçar identidades, desenhar personalidades e “falar” aos leitores.

Vem isto a propósito de algo que li recentemente de Haruki Murakami. Já há algum tempo tinha lido o “Kafka à Beira-mar”, que muito de agradou. Agora foi a vez do “Norwegian Wood”, que me confirmou o autor como alguém que vale a pena ler. Estando bem localizado num espaço e num tempo que não são os nossos, tem o condão de nos fazer entender e viajar na cabeça dos personagens, apreciando a paisagem.

No passado, depois de me agradar um ou dois livros do mesmo autor, partia para uma sequência que apenas acabava quando não vi mais títulos do mesmo nas estantes das livrarias. Neste caso, hesito. Tenho algum receio de que o próximo possa não estar à altura das expectativas… A ver quanto tempo demorará a superar esse receio.

02 junho 2026

E acabar de vez com a mistificação?


No meu texto designado “O filho bastardo” e publicado a 26 de maio, refiro que esta revolução e respetiva larga aceitação nos momentos iniciais foram em muito consequência da incompetência, intolerância e violência da Primeira República. Li posteriormente isso ser classificado como uma apologia da ditadura, o que não é obviamente correto. No próprio dia 28 de maio não se sabia exatamente para onde o regime ia, mas sentia-se a necessidade da rutura. Posteriormente alguns desses apoiantes da primeira hora terão ficado desiludidos e passaram a opositores. O 25 de abril também teve um largo apoio popular inicial que, face à diversidade e até incompatibilidade dos projetos subjacentes, acabaria por ver apoiantes passarem a opositores, conforme a evolução concreta.

Considerar a Primeira República como um regime democrático é mais uma mistificação. O seu grande líder Afonso Costa defender que “o PRP deve permanecer no poder para defender o povo, mesmo contra a vontade do próprio povo», diz muito quanto à dimensão democrática desse projeto. Esta doutrina não ficou pela teoria e várias vezes o PRP recorreu à violência e intimidação para se manter no poder.

O primeiro regime republicano caiu principalmente pelos seus próprios erros e não como uma inocente vítima de malvadas forças reacionárias. Está mais do que na hora de acabar com a mistificação, ilimitada tolerância e tribal simpatia para com os Afonsos Costas deste mundo, se não queremos voltar a ver Salazares. 

31 maio 2026

Sim, é execrável


O ministro israelita Ben-Gvir é um personagem execrável, grosseiro e sem respeito pelos princípios básicos dos direitos humanos. O filme em que ele se apresenta a humilhar os ativistas da última flotilha é um triste e condenável exemplo.

Essa condenação não justifica que se considerem todos os israelitas e por demais de razão todos os judeus do mundo igualmente execráveis. Tão pouco justifica o destaque planetário que provocou, pela simples razão de que há coisas muito piores a decorrer em simultâneo, que são ignoradas. Alguns exemplos: o que se passa na China com os Uigures vai muito para lá da humilhação de uns ativistas que decidirem ir provocar o lobo. É gente em sua casa, na sua terra a quem são retirados direitos básicos ao longo de décadas. Os massacres em Myanar e no Sudão, onde não se trata de humilhação, mas sim de assassinato em massa também não são notícia. O calvário sofrido pelas minorias religiosas, por exemplo pelos drusos na Síria não comove muita gente, nem desencadeia flotilhas.

Por outro lado, uma escaramuça entre colonos e palestinianos na Cisjordânia é sempre bem noticiada. Não está em causa defender todas as ações de Israel, mas no histórico das hostilidades estas foram quase sempre desencadeadas pelos árabes que não aceitam o estado judeu, que a seguir se defende, desproporcionalmente, é um facto. Há quem “religiosamente” não o queira reconhecer, mas façam um esforço de objetividade.

Podemos discutir se a decisão da criação de Israel em 1947 terá sido um erro, mas o tempo dessa discussão já passou. A história da humanidade está plena de decisões injustas que muito sofrimento provocaram, por exemplo no desmembramento dos grandes impérios, no redesenho das fronteiras europeias após as guerras, mas as feridas provocadas acabam sempre por sarar. No caso de Israel, continua a haver gente com poder que não desiste do projeto de “atirar os judeus ao mar”. Como isso nunca irá acontecer, nunca veremos estabilização. Os ativistas que consciente ou inconscientemente fazem coro com essa reivindicação não estão a lutar pela paz.

Sobre fazer prologar a crise e a vitimização: Ainda há netos refugiados das ex-colónias português após 1974 a viver em tendas em parques de campismo, subsidiados por um IARN? Porque é que os descendentes dos palestinianos que saíram de Israel em 1948 ainda são “refugiados” e as centenas de milhares de judeus que na mesma altura tiveram que abandonar os países árabes não o são?

28 maio 2026

O Schmidt e os vroumms (III)

 Começou aqui 

Uma meia dúzia de anos mais tarde, já regressado a Portugal, caiu na minha secretária uma chamada da Autoeuropa. Era do responsável do sector onde estava instalado o famoso armazém automático, agora um português. Quando me tentou explicar brevemente o que era o sistema, respondi-lhe de que o conhecia muito bem.

Tinham problemas importantes de funcionamento e queriam saber se os poderíamos ajudar… Vroumm até Palmela. O sistema tinha alguns cancros que pesavam na sua fiabilidade e custos de operação. Mais chocante foi que, ao contrário da nossa proposta que tinha respeitado religiosamente o solicitado, eles tinham ignorado inúmeros pontos e não menores. Como exemplo, para quem tenha um cheirinho de familiaridade com o contexto, a eletrónica de controlo, em vez de recorrer a equipamentos standard e abertos como exigido (vulgo PLCs), usava um hardware fechado e específico do construtor.

Vendemos um serviço de auditoria detalhada, mas, obviamente, meter as mãos em seara alheia e mal plantada era uma operação de alto risco. Acabamos por propor um conjunto largo de alterações, jogando pelo seguro, mas o valor era incompatível. Não sei como acabou… não houve mais vroummms nem fui ver o Schmidt que possivelmente já lã não estaria, nem teria sido o responsável principal pelo desfecho. Aliás, destas “vitórias” estão os cemitérios cheios.

Mais tarde, acabou por haver alguns alemães finalmente a comprar aquilo a portugueses, mas isso já são outras histórias.

27 maio 2026

O Schmidt e os vroumms (II)

 Começou aqui

Não ganhamos? Como assim? Então, o vosso procedimento…!? Explicou o Schmidt que, sim, pois, mas a diferença de preço era muito pequena, ele até a poderia pagar do seu bolso, e o futuro responsável do sector em Palmela, atualmente em Valencia, diz que prefere o outro fabricante que lá forneceu (por coincidência alemão). Vrouum para Bruxelas, voo para Madrid e vrouum para Valencia com o nosso homem local, Jesus Garcia, para tentar mudar as ideias ao espanhol renitente.

Este, muito simpático, frontal e acessível, informou que não estava ainda decidido que viria para Palmela e quanto ao sistema lá montado, que nos mostrou, tinha tido muitos problemas de infância, que foram corrigidos, e que funcionava, sem mais. De forma nenhuma estava rendido. Pude verificar que os alemães tinham arriscado em algumas soluções que não tinham funcionado à primeira, tendo necessitado de vários remendos.

Regressado a Bruxelas, vroumm até Colónia para informar o Scmidt de que por ali não havia problemas. Acrescentou que havia um problema na integração com o sistema de gestão de produção. Deu-me o contacto do freelancer americano que tratava do tema e apanhei-o na fábrica Ford de Genk, mais ou menos a meio caminho entre Bruxelas e Colónia. Vroumm até lá para explicar o que tínhamos previsto e que ele validou. Curiosamente acho que na altura eu já tinha o Mondeo MK1, produzido naquela fábrica, que fechou depois em 2014. O Mondeo passou de lá para Valencia…

Entretanto, dentro da política monetária em vigor na época, o escudo tinha desvalorizado, o que aumentaria a diferença entre o nosso preço e o do alemão.

Vroumm até Colónia para explicar ao Schmidt de que por ali não havia problemas. Então disse-me que a equipa de automação tinha encontrado um problema na nossa proposta. Quando lhe pedi os contactos, respondeu que já chegava, não mos dava e assunto encerrado. Encerrado mesmo? Nem tanto.

Como mais ou menos na mesma altura disse o Diretor Técnico de um grande grupo alemão que tentávamos convencer: Isto não é coisa que se compre em Portugal!

Continua e conclui aqui


26 maio 2026

O filho bastardo

Brevemente veremos passar cem anos sobre a revolução de 28 de maio de 1926. No passado era celebrada como data fundadora do regime em vigor, para outros foi a hora zero de uma longa noite de trevas.

Além das considerações e ponderações emotivas, penso que vale a pena refletir um pouco no que foi esse dia e no porquê desse dia. O dia e o movimento em si têm algumas semelhanças com os da revolução seguinte de 25 de abril de 1974. Um movimento militar derruba facilmente um regime fragilizado, que não resiste, e recebe elevado apoio popular. Sim, religiões e profissões de fé à parte, o 28 de maio terá sido até mais consensual e com apoio popular mais amplo do que o 5 de outubro de 1910. Porquê? Porque a primeira República foi de uma incompetência, intolerância, violência e desorganização que uma mudança radical se impunha e era bem-vinda.

O 28 de maio foi um filho bastardo do 5 de outubro. Não se trata aqui de relativizar, desvalorizar ou menorizar tudo o que depois se passou. Apenas insistir que o caminho trilhado pelos primeiros republicanos levou direitinho o país para o que se seguiu. É importante procurar e assumir racionalmente as relações históricas causa-efeito sem romantismos irrealistas. Questão de evitar tristes repetições. 

 

22 maio 2026

Quando se desperdiça energia renovável


A energia elétrica tem a particularidade de necessitar de um ajuste permanente e instantâneo entre a produção e o consumo. Historicamente o parque produtor tinha flexibilidade suficiente para se conseguir esse equilíbrio com alguma facilidade. A produção eólica e principalmente solar vieram trazer uma fonte muito variável e de difícil controlo. Com o seu aumento, torna-se mais difícil fechar esse balanço. O apagão de abril 2025 parece ter sido a consequência de uma falha nessa gestão.

No entanto, nos períodos com excesso de produção e quando há energia a ser oferecida a custo zero e mesmo marginalmente abaixo de zero, os consumidores domésticos estão num tarifário de “pico” e a restringir o consumo. Há aqui algo que não faz sentido, já que os esquemas tarifários continuam a ser os herdados de outro século e de outra realidade.

Se as grandes empresas podem gerir dinamicamente o seu consumo e a sua fatura em função do preço real, seria lógico que a nível doméstico se criassem mecanismos e tarifas dinâmicas para que equipamentos tolerantes à intermitência como aquecimentos de água, climatizações e carga de veículos elétricos, por exemplo, pudessem estar informados e reagir automaticamente, aproveitando esses períodos de excesso de produção e esses preços baixos.

Comportaria alguns desafios técnicos e regulamentares (e de contra lóbi), se bem que a dificuldade não estará ao nível de um projeto Artemis. Permitira os produtores serem melhor remunerados, os consumidores pagarem menos e os reguladores terem uma dimensão de controlo adicional.

O que não faz sentido é estarem os consumidores a travarem consumos, porque o custo da energia é alto quando o sistema rebenta pelas costuras com excesso de oferta e são travadas e desperdiçadas capacidades de produção renováveis.



21 maio 2026

O Schmidt e os vroumms (I)


Leio na imprensa que a Ford está a pontos de vender a sua fábrica de Almussafes, Valência, à chinesa BYD. Todo um símbolo, depois de acabar com os convencionais e históricos Fiestas e Focus e de fazer acordos com outros construtores europeus para produzir os seus elétricos. A seguir ao Capri com a VW, sem grande sucesso, agora passará para Renault. Basicamente significa que não vêm potencial para investir numa fábrica própria e .. a Renault terá espaço para aceitar outras marcas nas suas linhas. Ainda, todo um símbolo.

Isto lembrou-me uma visita que fiz a essa fábrica espanhola da Ford, algures por 1993 ou perto e no meio de outra crise da indústria europeia. Estava em curso a construção da Autoeuropa, na altura uma parceria em que a VW desenvolveu o veículo e a Ford as instalações. Eu estava baseado na Bélgica e saiu o concurso para um pequeno armazém automático, para a fábrica de Palmela. Destinava-se a ferramentas e consumíveis, materiais não integrados no veículo, mas era muito importante para nós, pelo símbolo de estar naquele investimento e naquele sector.

Como as compras estavam a ser coordenadas a partir da histórica fábrica da Ford de Colónia e de Bruxelas a lá eram 220km, fiquei encarregado de acompanhar a proposta. Vroumm e fui reunir com o comprador responsável pelo concurso. Não me recordo do nome, mas vou chamar-lhe Schmidt, combina com o perfil de que tenho memória. Uma curiosidade no parque de estacionamento do pessoal da fábrica. Numa altura em que a indústria europeia estava sob enorme pressão pela oferta asiática, ver automóveis japoneses ali pareciam-me ser uma incoerência.

O Schmidt explicou-me o procedimento. As propostas recebidas eram analisadas, validadas tecnicamente e a mais barata adjudicada. Não havia segunda hipótese nem negociação. Tínhamos interesse em apresentar o melhor preço logo na primeira e única oportunidade.

O caderno de encargos técnico era muito detalhado e especificava opções técnicas que não utilizávamos, algumas interessantes e que até posteriormente adaptamos como standards. Sendo portugueses, para um projeto em Portugal apresentamos o preço em escudos.

Submetida a proposta e decorrido o tempo de apreciação, vroumm, lá fui visitar o Schmidt que me disse que estávamos validados e éramos os mais baratos. Abri um sorriso de orelha a orelha e disse: Então, ganhamos! E ele respondeu… Não !

Continua para aqui

18 maio 2026

A extraordinária URSS


Por estes dias o nosso extraordinário PCP lembrou que “A União Soviética, infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente, porque de facto foram anos extraordinários para o povo”. Por estes dias celebrou-se o final da II Guerra Mundial, onde a URSS esteve do lado dos vencedores.

Aqueles que querem a todo o custo encontrar algum mérito no período soviético, descontando o anterior terror estalinista e a posterior repressão na Europa de Leste, realçam a sua participação e generoso esforço material e humano despendido nessa guerra, do lado “certo”.

No entanto…  Em agosto de 1939, Estaline apertava a mão ao nazi Ribbentrop (imagem), escassos dias antes das tropas alemãs entrarem na Polónia pelo Oeste e a URSS a seguir os imitarem pelo Leste. Até Hitler decidir entrar na URSS em 1941, os partidos comunistas europeus viam até com alguma simpatia o regime nazi.

No final da guerra, enquanto a Oeste, Eisenhower deixa a primazia da entrada em Paris a Leclerc, simbolicamente permitindo que a capital de França fosse libertada por franceses, na Leste, na aproximação a Varsóvia, quando a resistência armada polaca cresce, os blindados soviéticos param e aguardam cinicamente. Ter os resistentes polacos massacrados pelos alemães era trabalho em avanço, dispensando os soviéticos de precisarem de fazer mais tarde.

O esforço de resistência clandestina polaca foi talvez daqueles com maior dimensão e organização, mas no final perderam de novo. O “mundo livre” deixou-nos sob a pata de Estaline.

Ainda estou à espera do detalhe do que foram os anos extraordinários da URSS. Talvez os polacos possam ajudar.

15 maio 2026

Glosa Crua, 21 - Tempo, 0


Sim, aqui no Glosa Crua não é habitual celebrar efemérides. Uma exceção é o aniversário do blogue, que a 13 de maio fez 21 anos.
Já foi  há 2 dias. Distraí-me, não tenho estado atento a notícias de Fátima, também não estou à espera de milagres... :)

14 maio 2026

A escravatura, as desculpas e outras contas

Por estes lados, por vezes vemos o mundo com óculos” made in USA”, que nem sempre proporcionam uma visão suficiente alargada da realidade. Um exemplo é o caso da escravatura. Para eles será sinónimo do tráfico transatlântico de África para o continente americano. Como sabe facilmente quem quiser saber, a escravatura foi uma realidade muito disseminada no passado, remontando a tempos em que ainda não havia navios a atravessarem o Atlântico.

No século VII, no tempo de Maomé, era banal e perfeitamente aceitável naquela sociedade. Daí que o Corão, na sua dimensão regulamentar, refira direitos e obrigações de um muçulmano face aos seus escravos. Quando o Ocidente vem decretar ser proibido algo que uma leitura estrita do livro sagrado considera permitido, a rejeição é grande. Dentro do negativo das colonizações do século XIX de África, elas tiveram um papel decisivo no combate ao fenómeno nesse continente.

Aqui por perto, no Mediterrâneo e na costa atlântica, muitas ações de saque e de captura de escravos foram realizadas pelos corsários otomanos a partir de principalmente Argel, Tunes e Rabat, ações terminadas em meados do século XIX… com a colonização francesa do Norte de África. São referidas mais de um milhão de capturas, menos certamente do que os números transatlânticos, mas de todo não irrelevante. Miguel Cervantes por isso passou, em Argel,

Uma vez que já atravessamos a maré dos pedidos de desculpa, se quer avançar para a parte das compensações e o assunto ganhou foro global na ONU, sugiro que a Turquia faça também a sua parte, começando pelas desculpas.  O saque de Porto Santo em 1617, por exemplo, foi terrível. Depois dessa fase, podemos eventualmente passar à fase das compensações, mas sempre numa perspetiva de equidade… Obviamente que nunca na vida a Turquia irá apresentar um mínimo esboço de pedido de desculpas pelas ações dos seus corsários no passado e, se calhar, terá razão.

 

13 maio 2026

O Hantavírus


Parece que o bicho embarcou num navio de cruzeiros e daí saltou para a primeira linha das páginas noticiosas. Os jornalistas fazem diretos em frente a hospitais, os fabricantes de máscaras carregam no acelerador e vemos alguma excitação de quem já viu o Covid-19 e parece estar a ver chegar um digno sucessor.

No final dos anos 90 desloquei-me várias vezes à Argentina durante a realização de dois grandes projetos. Numa altura em que estava com a equipa de colegas em La Plata, a sul de Buenos Aires, lemos nos jornais locais artigos sobre o aparecimento de alguns casos de um tal "hanta virus", da qual pouco sabíamos.

Não conhecíamos a doença, mas, pelo tom das notícias, parecia feia. Ao perguntar na receção do hotel lá nos explicaram que era um vírus que aparecia nos ratos com o lixo, no lixo com os ratos, mas que não nos preocupássemos porque era um problema “só dos pobres”. Ainda perguntámos se era contagioso, como se transmitia e responderam-nos que sim e que se transmitia pelo ar. Fomo-nos deitar desejando-nos mutuamente votos de boa noite e de bom vento (que soprasse na "boa direção"...).

Tanto quanto soubemos, o vento não terá soprado demasiado forte, já que não ouvimos mais noticias sobre o tal vírus. Neste caso atual, a ver vamos, mas pelo menos para já não me tirará o sono. Talvez nos possa fazer refletir sobre a dimensão do planeta e a globalização que se torna efetiva a várias dimensões. Como se resolve o problema dos ratos e dos pobres, não sei. Certamente que não será com cruzeiros exóticos, embora estes possam trazer para as primeiras páginas alguns detalhes que não faz mal conhecer.

10 maio 2026

Receiem os vivos


Dizem que se deve recear fortemente os vivos que não conseguem respeitar e dignificar os seus mortos. No caso do falecimento de Carlos Brito, histórico e destacado militante do PCP, a reação do partido é efetivamente assustadora.

A imagem acima publicada, “A pedido de vários Órgãos de Comunicação Social”, (apenas saiu a pedido?), é de uma confrangedora miséria humana.

Obviamente que podemos discordar das suas posições, antes e depois do seu afastamento do partido, mas alguém que durante tantas décadas se dedicou a uma causa, merece ser respeitado e enaltecido por aqueles a quem ele consagrou tão intensamente o seu esforço e uma grande parte da vida.

Tinha razão quando assumiu a rutura? Talvez tivesse, mas especialmente neste momento isso seria um episódio que não deveria apagar o reconhecimento sincero e espontâneo do partido por tudo o que antes ele fizera.

O PCP é realmente um partido que assusta. 

Original aqui

08 maio 2026

A culpa é dos States


Sim, os EUA não são de forma nenhuma um ator angelical e puro na geopolítica mundial. Particularmente o seu atual Presidente deixa muito a desejar quanto a ética e princípios, mas daí a colocá-los na primeira linha das responsabilidades por todas as desgraças do mundo, vai a distância de uma generalização abusiva.

Recentemente vimos uma inacreditável “pérola” desse “desporto” de culpar os EUA de tudo e mais alguma coisa. Judite de Sousa, que por formação e currículo tinha obrigação de saber o que diz e medir as suas palavras, veio afirmar que “O Japão atacou Pearl Harbour porque levou com dois bombas atómicas”. Não está apenas em causa a discrepância cronológica do ataque japonês ter ocorrido em 1941 e os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki em 1945.  O primeiro evento foi um ataque surpresa, sem declaração prévia de guerra, que precipitou a entrada dos EUA na guerra; o segundo foi o momento final que levou à capitulação do Japão.

Penso que nem Donald Trump poderia afirmar tal barbaridade, sendo de realçar que ele não tem formação superior em História, como esta famosa jornalista e comentadora … É absurdo e estúpido demais para ser verdade.

Dir-se-ia que as nossas TVs têm mais espaços de comentários do que comentadores habilitados para os preencher. Que crédito podemos dar a esses palpitadores “todo-o-terreno” que por ali pululam?

05 maio 2026

A linguagem de estar e ficar no poder


Manter-se no poder é um desafio que pode recorrer a várias estratégias e linhas de força.  Como em muitas receitas, os ingredientes podem ser variados, mas em cada caso concreto há sempre um eixo principal na afirmação e justificação do “Aqui quem manda sou eu!”.

A mais comum nos tempos que correm, no nosso mundo, é a legitimidade democrática. Os eleitores deram um mandato limitado no tempo e no âmbito para alguém assumir o poder. Pode evoluir para situações “pós-democráticas” de outra natureza. Como dizia o Sr Erdogan, a democracia é um comboio que se apanha e do qual se sai quando ele chega à estação pretendida.

Outra forma é a da força. Mando porque sou o mais forte e se alguém dúvida, vamos ao rinque e veremos quem fica em pé. É uma forma bastante clássica e tradicional, sendo que a força pode ter várias dimensões e os combates no rinque não estar sujeitos a regras equitativas.

Temos também a legitimidade divina. Sou rei por vontade divina e colocá-lo em causa é atentar contra a autoridade de Deus. Bastante simples e eficaz.  A curiosidade é que em situações de revolução e de rutura dinástica, o novo rei conseguia sempre no final obter o apoio divino. Algo flexíveis estas vontades sagradas.

Outro tipo é a legitimidade revolucionária. Os vencedores de uma insurreição entendem que esse sucesso é mérito suficiente para os manter sentados e colados à cadeira. O problema aqui é o prazo de validade. Se no dia seguinte à revolta é aceitável ver no poder numa junta ad hoc, dois anos mais tarde já será abuso e vinte anos depois é caricato e escandaloso.

Há também a legitimidade da bondade paternalista. O poder infantiliza a população e defende que há todo o interesse em os deixar governar, porque eles são muito bonzinhos e a alternativa representa uma grande ameaça. Às tantas, até comem criancinhas ao pequeno-almoço! Sim, entendo que o Estado Novo era predominantemente desta classe.

Finalmente, existe a legitimidade do terror. O sistema tem enormes poderes arbitrários, mesmo de vida e de morte, sobre a população e qualquer um, por um sim, por um não ou mesmo por um silêncio, pode ver a sua vida descambar. Um bom exemplo é o da China maoista em que o grande timoneiro declarava existirem x% de traidores a executar e os seus comissários deviam cumprir a quota, se não queriam ser eles próprios considerados traidores. Os milhões que passaram e muitos deles ficaram no Gulag estalinista, também não eram todos perigosos ativistas que ameaçavam o poder. Muitos deles apenas ali caiam “para exemplo” e recordar que ninguém estava a salvo… do poder.

04 maio 2026

Arcozelo 1974 : Padre Branco x Fortunas

A minha família nunca foi muito de sacristias. Em 1974 eu ia à missa apenas com a minha mãe, o meu pai passava. Uma boa parte da família alargada costumava assistir à de sábado, ao final da tarde, ficando assim o domingo livre para os picnics na Ria de Aveiro e outras saídas.

Após o 25 de Abril, ocorreu uma sessão de esclarecimento no campo de futebol da freguesia, secretariado pelo meu tio-avô, Adolfo Fortuna, que teve uma breve passagem pelo PS. O pároco da freguesia ouviu numa intervenção algo que não apreciou e pediu a palavra. Aparentemente o meu tio-avô terá registado a solicitação e informou o senhor padre de que iria falar quando chegasse a sua vez, após os anteriormente inscritos. O senhor padre ficou furibundo pela ausência de tratamento prioritário e foi-se embora.

No sábado seguinte, na tal missa do sábado, o pároco aproveitou a homilia para demonstrar a sua ira contra uns certos irmãos, supostamente “fascistas”.  Eu estava lá e recordo-me de, na fila da igreja imediatamente atrás de mim, o meu tio-avô Ilídio Fortuna resmungar a meia voz: Fascista, fascista… fascista é ele!  Na altura, a palavra “fascista” era um depreciativo de largo espetro.

Por canais que ignoro, o assunto chegou a uma rádio, que noticiou a particularidade dessa homilia na paróquia de Arcozelo, Vila Nova de Gaia, libertando grande polémica.

Na missa da manhã do domingo, o senhor Padre resolveu apresentar um “Agarrem-me, senão eu parto”. Anunciou que iria abandonar a paróquia e que agradecessem “a uma certa família”. Gerou-se imediatamente um enorme movimento beático de apoio, “O Padre é nosso, o Padre é nosso”, transformando a missa numa ruidosa manifestação de apoio ...

Como consequência, a família ficou zangada com o sacerdote e o mais interessante para mim foi termos deixado de ir à missa, nem sábado, nem domingo.

Apenas uma pequena história no meio dos inúmeros episódios curiosos que ocorreram no imediato da revolução. Posteriormente as relações acalmaram, como previsível, mas a história é também feita de pequenas histórias.

02 maio 2026

F1 – Febre de ultrapassagem


Depois das duas corridas anuladas pela guerra no Médio Oriente, que assim encontra algumas dificuldades no seu caminho para ser a nova Meca deste caro desporto, a F1 regressa este fim de semana. Após as três primeiras corridas a polémica é grande quanto à razoabilidade das novas regras de gestão da potência elétrica, que provocam alterações abrutas e perigosos na velocidade das máquinas.

Este cenário recorda-me aqueles filmes de competição em que há dois carros par a par numa longa reta e o herói tem a inspiração de encontrar mais uma velocidade e espremer mais o acelerador, afastando-se assim brilhantemente do vilão. É irrealista porque numa corrida a sério, no meio de uma grande reta vão todas as mudanças metidas e o acelerador já a fundo, sem reserva. As ultrapassagens a sério, entre carros de desempenho idêntico são feitas nas trajetórias e travagens nas aproximações às curvas. Ver os exemplos históricos acima de Villeneuve x Arnoux em França 1979 e Piquet x Senna na Hungria 1986 (desculpem a qualidade das imagens, não encontrei melhor).

Hoje, parece que estamos numa realidade próxima dos filmes que eram irrealistas. Com os eletrões a serem libertados quando se quer/pode, qualquer um ultrapassa qualquer um, como quem limpa o coiso a meninos… Dizem que estas medidas de facilitar as ultrapassagens ajudam ao “espetáculo”…. A sério?

Recordo-me de outro episódio também histórico e também com Gilles Villeneuve, desta vez em Espanha 1981. Com um carro mais lento do que a concorrência e uma capacidade de condução muito acima da média, o canadiano aguentou um comboio de quatro carros atrás dele durante mais de 60 voltas, sem um único erro e sem permitir a ultrapassagem. O 5ª terminou a 1,24 segundos do primeiro, tão compacto era o comboio. Com o regulamento atual nem duas voltas o comboio duraria, provavelmente nem se formaria sequer. DRS em cima e ops, ninguém fica atrás de ninguém …

Onde está o espetáculo mais interessante e revelador das qualidades de pilotagem?

28 abril 2026

Os que comem tudo!


Em 1963, José Afonso gravava “Os vampiros”, invetivando aqueles que “Comem tudo e não deixam nada”. Nessa data era óbvio a quem a metáfora se dirigia. Aqueles que o viveram, o sentiram ou hoje pensam sentir, continuam a vibrar com a denúncia dos “Senhores à força, mandadores sem lei”…

Agora, agora, hoje, esses vampiros de 1963 estão bem mortos e enterrados. Haverá o risco do bando voltar, procurando “chupar o sangue fresco da manada”? O risco naturalmente existe sempre, mas, sinceramente, a sua probabilidade de sucesso é bastante limitada para justificar uma dramática mobilização contra esses específicos “pés de veludo”.

Agora, agora, hoje, não haverá por acaso outros tipos de vampiragem que por aí andam a comer tudo …? Mais do que romanticamente vituperar os vampiros de 1963, protagonistas de um contexto que já não existe há décadas, não será mais útil denunciar os parasitas que em 2026 por cá vagueiam impunes e vistosos …?

Atualizado a 06 05 2026 com a publicação no Público



25 abril 2026

A janela que Abril abriu


Em 1974 um sistema triste, retrógrado e sufocante caiu de podre. Não foi preciso muito esforço para ele se desmoronar completamente e a revolução conseguir uma enorme adesão popular. Num meio bafiento e asfixiante foi uma janela que se abriu e dessa abertura esperava-se um desapertar do país para uma realidade mais aberta, livre, justa e próspera (e sem guerra). Havia objetivos largamente consensuais entre a maioria da população simples e claros.

Como expetável o caminho específico e os destinos concretos seriam menos consensuais. Para desempatar essas divergências existe um sistema que é o pior sistema com exceção de todos os outros: a democracia.

Apesar de alguns sustos e ameaças, o 25 de abril cumpriu as expetativas globais e se onde estamos não é o local que muitos ansiaram em 1974, paciência. A janela abriu, ficou aberta, o país foi e será aquilo que os portugueses quiserem. De pouco serve hoje proclamar nostalgias românticas do que não foi e poderia ter sido. Olhemos para a frente, será mais útil e mais construtivo.

22 abril 2026

A tua tortura é pior do que a minha


Por estes dias tem sido notícia e polémica a contabilidade dos presos políticos de antes e depois do 25 de abril. O debate é temperado com argumentos sobre como se integra na comparação a diferença na duração entre 48 anos e 2 anos e em que medida os antecedentes e respetiva tensão acumulada atenuam a importância do fenómeno. São ponderações e contabilidades pueris.

A principal diferença que vejo é que relativamente ao Estado Novo é praticamente consensual terem existido presos políticos, torturas e outras barbaridades, sendo raríssimas as vozes que as desvalorizam ou tentam apagar. Quanto ao pós 25 de Abril, as leituras são muito mais relativizadas. É indiscutível que em 1974-75 houve atropelos graves e sistemáticos ao Estado de Direito e aos Direitos Humanos, devidamente promovidas e validades por altas hierarquias em funções. Não foram esporádicas escaramuças em contexto de excitações revolucionárias. Começaram em setembro de 74, cinco bons meses depois da revolução e não se autoextinguiram por normalização dos seus protagonistas, mas por um contragolpe em novembro de 75.

O facto de terem existido é grave e as tentativas de branqueamento por quem gosta de hastear a bandeira da liberdade e da democracia são imposturas hipócritas. Aqueles que ainda guardam respeito e admiração por figuras como Otelo Saraiva de Carvalho e o seu projeto de encher o Campo Pequeno de contrarrevolucionários, podem manter as suas convicções, não serão presos. Agora, assumam que não são democratas nem defensores da liberdade. Os do outro lado são mais claros nas suas opções e intenções. Procurar comparar as conta-correntes de Salazar e de Otelo é de interesse secundário. O mais importante é assumir que existiram e não devem voltar a existir.

20 abril 2026

Y Viva España


Vejo nas notícias em Portugal que o nosso Presidente da República está em visita oficial a Espanha, encontrando-se com o Primeiro-Ministro e o Rei. É a sua primeira viagem oficial ao estrangeiro.

Vou espreitar os jornais “hermanos” que acompanho, El País e El Mundo, deste até tenho assinatura, e na página principal nem sinais de AJ Seguro. Resolvo fazer uma pesquisa à palavra “Portugal” e os resultados são os da imagem. Incrível! Dois dos principais media espanhóis ignoram absolutamente a visita (a menos que esteja tão escondido que não vi).

De uma forma geral, Portugal é notícia em Espanha em três situações.

  • a)       Quando aqui ocorre uma desgraça
  • b)       Quando aqui ocorre algo de embaraçoso/vergonhoso
  • c)       Quando lá ocorre algo de embaraçoso/vergonhoso, em Espanha, e eles resolvem autoflagelarem-se dizendo: Vejam que até Portugal consegue fazer melhor do que nós

Curioso… e representativo

19 abril 2026

O exemplo vem de cima


Ouvimos e reouvimos apelos e anúncios do Governo, clamando pela redução da sinistralidade rodoviária, incluindo agravamento das penalidades para os infratores. Não podemos deixar de recordar a imagem do Primeiro-Ministro, apresentando-se em filme publicitário sem cinto de segurança. Um pequeno detalhe, mas que vale bastante.

O à-vontade demonstrado evidencia ser um hábito. Quem tem o costume consolidado de colocar o cinto, estranha instintivamente a sensação de se deslocar sem aquela amarra. Especialmente ao produzir um filme que será publicado, é sintomático esse reflexo não ter atuado. Temos, assim, um PM para quem as leis da estrada são dispensáveis? Já o tínhamos sabido relativamente aos (não) limites de velocidade que se costumam aplicar à casta governante.

Se o ridículo era grande, Miguel Guimarães conseguiu ainda aumentá-lo, ao tentar explicar e desculpar, argumentando que o veículo estaria meio parado. Recomendo-lhe fortemente uma consulta urgente a um seu colega oftalmologista. A menos que o conceito de “meio parado” fosse que a parte esquerda do veículo, onde estava Montenegro e o motorista, estivesse em movimento e a parte direita eventualmente parada. Algo um pouco irrealista e inviável, é certo, mas como já estamos habituados a “histórias da carochinha”…

17 abril 2026

José Luís Tinoco


Alguém se recorda da canção que venceu o Festival da Canção há 5 anos? Ou o de há 10…?

No entanto, todos ou quase todos se recordarão daquela que ficou em terceiro lugar há 50 anos, em 1976. Termina assim:

No teu poema

Existe a esperança acesa atrás do muro

Existe tudo o mais que ainda me escapa

E um verso em branco à espera do futuro

E a primeira voz pela qual a ouvimos era a de Carlos do Carmo

Sim, era de uma época em que as canções tinham letras, melodias e interpretações que venciam o tempo.

Esta semana deixou-nos o seu autor, José Luís Tinoco, mas também nos deixou belas obras, que jamais esqueceremos!

(No teu Poema)

Existe um rio

A sina de quem nasce fraco ou forte

O risco, a raiva e a luta de quem cai

Ou que resiste

Que vence ou adormece antes da morte

16 abril 2026

À antiga…


Numa fase em que é consensual que os partidos habituais do poder precisam de mudar de vida e de hábitos, para limitar o crescimento dos populismos e extremismos perigosos e prejudiciais, vimos duas notícias interessantes.

A indicação pelo PS de Tiago Antunes para Provedor de Justiça. Este senhor aparentemente terá tido um pseudónimo Miguel Abrantes, cuja missão no blogue Câmara Corporativa era defender com unhas e dentes um tal suposto engenheiro, efetivo primeiro-ministro, José Sócrates.

A outra é a indicação pelo PSD de António Preto para o Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais. Este senhor recebeu a alcunha de “homem da mala”. Não foi efetivamente condenado, mas, entre outros episódios, receber 150 mil euros em líquido, seja em malas, seja noutro recipiente, não faz parte das práticas habituais dos cidadãos de boas práticas.

Continuem com nomeações limitadas a fiéis militantes, independentemente do seu currículo e cadastro, continuem a clamar pela defesa dos valores democráticos e depois verão o que a democracia vos irá trazer.

15 abril 2026

Em modo diversão


Como eu dizia aqui atrás quando falava de cavalo à solta, a bicicleta elétrica poder ter três modos de funcionamento, exercício, passeio ou diversão.

Este é um exemplo do modo diversão, no monte de S. Lourenço ali entre Palmeira de Faro, Vila Chã e Belinho. Acho que a música combina bem em ritmo e em tempo!

Está aqui.

 

14 abril 2026

TGV – Santo Ovídio


Sei que não estamos na altura de discutir este assunto, mas relativamente à estação TGV planeada para Gaia, se, em vez de Santo Ovídio ou Vilar do Paraíso, ela não existisse de todo?

Um TGV vale pela rapidez da viagem e as suas paragens devem ser muito limitadas. Fará sentido existir uma segunda paragem a cerca de 5km de Campanhã, num contexto completamente coberto por transportes públicos, incluindo metro? Indo aos exemplos de fora, em Paris, na saída para sudoeste, Nantes e Bordéus, a primeira possível paragem dos TGVs é em Massy, a mais de 15 km. Na saída para sul, para Lyon, a maior parte das circulações são diretas, algumas eventualmente parando no aeroporto de Lyon, também a mais de 15 km da estação do centro da cidade.

Com este critério, a paragem Porto-Sul do TGV ficaria para os lados de Espinho… O argumento de que as estações fora dos centros não funcionam, aplica-se certamente às que nascem entre beterrabas, pretendendo servir uma cidade 20 km acima e outra 30 km abaixo. Não é o caso da malha urbana em causa.

Uma estação em Gaia não será feita para servir os moradores da sua Avenida da República. Esses, que são poucos para a justificar, até têm linha de metro para irem até Campanhã. Os outros virão do Sul e, mesmo excluindo os egoístas que querem chegar em viatura própria, muitos precisarão de aceder por meio rodoviário, seja táxi, TVDE ou autocarro. Para esses, Santo Ovídio já é um calvário e pior ficará.

Sem questionar o trabalho e a competência da APA, uma decisão desta natureza não deveria estar dependente da sua palavra final. Na minha opinião, se não hã alternativa a Santo Ovídio, esganada à superfície e entalada na profundidade, mais vale não fazer.

12 abril 2026

Nem maçom, nem sacristão


Desde muito cedo tive a certeza de que nunca seria sacristão. Não por ter grandes desalinhamentos de princípio com o Nazareno, descontando, é certo, os seus excessos apocalípticos. Houve e haverá cristãos, pessoas fantásticas, de enorme valor humano e intelectual, mas a instituição Igreja sempre me cheirou demasiado a uma certa hipocrisia bolorenta. Que me perdoem os crentes sinceros e bem-intencionados, mas o perfume que me chega às narinas não é coisa que me entusiasme.

Escalas e contextos à parte, a instituição abriga também alguns pequenos Torquemadas, símbolos de intransigência e obscurantismo, de quem se agradece distância.

Quanto à maçonaria, o paralelo é grande (ó Diabo...!). Efetivamente, é difícil discordar dos princípios da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, mas quanto às práticas da organização, a incoerência é grande. Como o posso saber, quando a sua atividade é secreta (ou discreta, para quem gosta de eufemismos)? Que conheço eu de concreto, que me permita fazer tal afirmação? É simples. Precisamente por não conhecer nada de concreto e público por eles realizado na atualidade. Para quem defende convictamente uns princípios e um projeto, qual a razão de o fazer às escondidas? Diz-se que” Quem não deve, não teme”; eu acrescento que “Quem não teme, não se esconde”.

Existirão ainda por aquelas bandas uns pequenos Robespierres, companhias muito pouco recomendáveis para quem valoriza pluralismo e liberdade e de quem se agradece distância.

Outro ponto comum é existirem nas duas instituições aderentes motivados não pelos princípios e convicções, mas pelo oportunismo de apanharem boleia para locais protegidos, de acesso discretamente privilegiado para membros. Nestes casos passamos da discordância para a repugnância.

A todos aqueles que se eclipsaram ou que o poderão fazer por estas minhas afirmações e opções, apenas posso dizer: Fiquem com as vossas grilhetas, que eu não prescindo da minha liberdade. Nunca mendiguei apadrinhamentos e nunca valorizei ninguém que não fosse pelo mérito e competência. E tenho um estomago delicado…

Infelizmente o prejuízo não acaba aqui, individualmente … o sucesso e a prosperidades “universais” dependem, indiscutivelmente, de outros valores.

08 abril 2026

Comical Trump


Durante a invasão do Iraque em 2003, Mohammed Saeed al-Sahhaf, na altura Ministro da Informação de Saddam Hussein, ficou famoso por relatar na televisão evoluções da guerra que só ele via, conforme os seus desejos e completamente opostas à realidade em curso. Uma das alcunhas irónicas que recebeu foi Comical Ali.

Por estes lidos temos ouvido outro cómico falar de conversações de paz, mudanças de regime no Irão e outros “factos” que também apenas ele “vê”. Tem algum paralelo.

É difícil não concordar com a necessidade de impedir o acesso do Irão à bomba atómica, seria salutar uma mudança de regime (para melhor) e silenciar os terroristas do Hezbollah e outros afilhados… No entanto, antes de mexer num vespeiro, convém tomar as necessárias precauções. Uma delas, seria, por exemplo, garantir a segurança do estreito do Ormuz, que está em via de se tornar uma das portagens mais caras do mundo!

Um regime como o iraniano não cai apenas por lhe decapitar algumas lideranças, mas Trump parece ter entrado numa fase de arrogância e prepotência que exclui toda e qualquer opinião diferente da sua, o que costuma dar asneira.

 Esta guerra, a continuar assim, não vai terminar rapidamente e a desproporção de custos entre um drone e o missel que o intercepta é tal, que o tempo corre a favor do Irão. Também não será com bombardeamentos contínuos e com ameaças boçais e brutais contra toda a população que ela receberá estes “salvadores” de braços abertos.

Se o objetivo era ter em Teerão um regime mais tolerante e comprometido com uma certa ordem internacional, talvez tivesse sido boa ideia não ter cortado as pontes em 2018, quando o mesmo Trump decidiu matar o acordo, bom ou mau, mas um acordo, em curso. 

07 abril 2026

A China e eu - Em imagens

 Depois de algumas divagações escritas

aqui (1)

aqui (2)

e aqui (3),

é a vez de aqui ficarem algumas imagens.


04 abril 2026

As Constituições


Estamos a celebrar os 50 anos da Constituição da República Portuguesa de 1976, tratada como se fosse “A Constituição”. Não é bem assim. Para começar, todo o processo da sua redação foi extremamente delicado e condicionado pela tutela militar e por forças minoritárias, não democráticas. Foi um exercício de equilíbrio delicado e resultou num texto que, apesar de vários pontos notáveis e positivos, não agradava completamente a ninguém. Teve o mérito de ter sido concluído e apontar um caminho.

Apenas com a revisão de 1982 foi consolidado o regime democrático e plural, entre outras medidas com a extinção do Conselho da Revolução e liberalização da economia. Felizmente ficou irreversível, apesar de todo a deceção da esquerda comunista.

Permanece no preâmbulo, é certo, a missão de “abrir caminho para uma sociedade socialista”, felizmente mais como curiosidade caricatural do que como letra de lei. Se assim não fosse, teríamos o TC a vetar todas as medidas legislativas que não fossem no sentido de caminhar para o socialismo!

Apesar disto, a revisão constitucional (e exatamente de quê) é uma necessidade do regime? É ela que nos impede de ver o país a funcionar eficazmente e com prosperidade? Penso que não. Há muitas oportunidades de melhoria nas atitudes e nas ações de quem nos governa largamente prioritárias. Discutir uma revisão agora é manobra de diversão… e há quem goste.

31 março 2026

A China e eu - Terceiro ato


Pelos anos de 2018 e 2019 desloquei-me várias vezes à China, percorrendo uma dúzia de cidades, grandes fábricas, utilizando aviões, TGV’s e estradas.

De Sul a Norte, desde Hangzou até Jilin na Manchúria, já próximo da Coreia do Norte, uma nota para a eficiência. De uma forma geral, as coisas funcionavam bem e a horas. As fábricas, os hotéis, os restaurantes, os meios de transporte, funcionavam. A internet tecnologicamente sim, os conteúdos é que estavam limitados, nada de Facebook, Blogger, Youtube, Googles e outras impurezas.

Um sentimento de muita coisa nova. Até passei ao lado de uma central de carvão novinha em folha – poderíamos para lá ter despachado a do Pego, que não sendo nova, ainda tinha muitos anos de vida. Surpreendente também a quantidade de câmaras de vigilância aos cachos em cada poste, canto e esquina… além das outras vigilâncias, menos visíveis.

Por vezes tudo novo de mais. Entrar numa cidade por uma grande avenida, entre enormes edifícios, e sair pela mesma avenida, sem entender quando teríamos atravessado o centro da localidade. Outro aspeto curioso sobre as interações sociais. Para lá da camada de chineses habituados a contactos regulares com o exterior, com os restantes locais, era terrível. A questão não residia apenas na barreira linguística. Mesmo sem trocar uma palavra é possível comunicar e interagir com outros seres humanos. Ali não era fácil…

As minhas viagens não eram turísticas e apenas pude dar um salto ou dois a algumas curiosidades nos intervalos do programa. A Cidade (outrora) Proibida, em Pequim, o lago e os pagodes de Hangzhou e a cosmopolita Xangai. Com as devidas reservas pelas limitações do âmbito das viagens, não consegui encontrar a pujança e a herança cultural esperadas de um país outrora tão rico e evoluído… Como se o desenvolvimento evidente tivesse soterrado esses vestígios.

Parece que a chamada “Revolução Cultural” dos anos 60 ajudou bastante a esse apagamento e não só na dimensão material. Se há quem considere que a ditadura do Estado Novo moldou e condicionou as mentalidades por estas bandas, como José Gil gosta de afirmar, a repressão e o terror maoísta terão dado direito a amputações mentais e aniquilamentos culturais completos.   

Numa altura em Pequim, de uma janela do escritório onde estava, vi meia-dúzia de pessoas num cruzamento ao fundo e disse ironicamente ao nosso contacto chinês: “Olha, está uma manifestação a decorrer ali!”. Ele saltou da cadeira estupefacto para verificar. Se lhe tivesse dito que um Ovni tinha aterrado na cidade, a surpresa não seria provavelmente maior…

Durante o século XIX, muito debilitada e pobre, a China sofreu enormes humilhações às mãos do Japão e das potencias ocidentais. Certo que em parte devido a uma grande dificuldade em evoluir e jogar o jogo do poder como o mundo na altura jogava. A “reconquista” da unidade (esqueçamos Taiwan) foi uma grande façanha política e militar, inicialmente muito ajudada pela URSS e tirando partido da sofreguidão de poder e falta de escrúpulos de Mao. Mais tarde foi a vez dos EUA (Nixon e Kissinger) ajudarem. O crescimento da China era um contrapeso para diminuir a influência soviética no mundo.

Pode-se entender que persista um registo traumático desses tempos e uma hipersensibilidade quanto a tudo o que possa pôr em causa a unificação, soberania e riqueza conseguidas, mas…

O espartilho que o “partido” aplica aos seus cidadãos é sustentável? Quando as evoluções não ocorrem gradualmente, há o risco de chegarem mais tarde brutalmente. A China evolui materialmente, sim, mutuíssimo. Essa riqueza material chega para as expetativas dos seus cidadãos?

Uma coisa é certa, já deixei demonstrado que tenho dificuldade em conseguir entender e prever o que por lá se passa ou passará...