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19 junho 2026

Mata-mouros reformado

Já o tinha referido aqui, há quase 14 anos, como o aguerrido Santiago Matamoros fora reconvertido em simples jardineiro. O que lá escrevi mantém-se de atualidade.

O culto de Santiago e a suposta descoberta dos seus restos mortais na Galiza está intimamente ligado e alimentado pela campanha de reconquista, à qual o apóstolo serviu de invocação e estandarte. Deu até o nome a uma das principais ordens religiosas guerreiras da península Ibérica.

Obviamente que entre os milhares de peregrinos que hoje demandam Compostela, poucos o farão por devoção religiosa e talvez nenhum para pedir apoio em guerras contra infiéis. No entanto, a história é a história.

Um destes dias ao discutir o assunto com um amigo que planeava ir ao tal “Campo de Estrelas”, encomendei-lhe o serviço de investigar como iam as flores que delicadamente davam abrigo visual às vítimas do mata-mouros. A resposta é que na catedral já não há apóstolo guerreiro. A estatua em questão foi discretamente trasladada para o museu diocesano, certamente muito menos vista do que no lugar original.

Podemos entender que para a generalidade dos peregrinos o ímpeto guerreiro do apóstolo (ou da imagem dele criada) não seja o que estão à espera de ver quando concluem a sua romagem. Mas, de que serve assepsiar a história? Provavelmente uma boa parte dos muçulmanos mais suscetíveis nem sequer franquearão o pórtico da catedral, mas… não seria bonito poder dizer ombro-a-ombro, cristão e mouro, felizmente já não estamos nestes tempos?

Entretanto, mesmo em frente, do outro lado da praça do Obradoiro, no edifício do “Concello”, equivalente da Câmara Municipal, está exposta uma bandeira da Palestina. Sim, que há gente inocente que lá sofre, mas e os outros? Na Ucrânia, Congo, Síria, Sudão, Curdistão, Myanmar, Xinjiang e a lista continua. Será o fato de não serem vítimas de Israel que os torna menos merecedores de solidariedade?

Já agora, só falta chamar palestiniano a Tiago. Ao fim e ao cabo, ele foi morto por Judeus… E a reconquista, que o seu culto patrocinou, sendo que o seu contexto em Braga ou Lugo é muito diferente de Sevilha ou Córdova, foi uma luta contra um invasor de outra etnia e de outra religião. Podemos estabelecer alguns paralelos…

Em resumo, os belgas que terraplanem a colina de Waterloo para não lembrar guerras passadas e provocar os franceses… estes que revejam e apaguem os nomes sensíveis inscritos no seu Arco do Triunfo …  e a lista por aqui seria longa. Mesmo o nosso Mosteiro da Batalha pode ser coisa de incomodar os nuestros hermanos. Talvez seja melhor pensar construir uma barreira visual à volta.

Quando se quer construir um futuro apagando o passado, o edifício não resulta robusto.

 

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