28 outubro 2015

Cheira mal

O senhor José Sócrates cheira mal. Vamos esquecer, por agora, o enquadramento jurídico estrito, dado que ainda não foi julgado e, até lá, beneficia da presunção da inocência.

No entanto, para um ex-político, e supostamente até de esquerda, é obsceno o nível de vida por ele praticado, ainda por cima às custas de um amigo que, se empresta dinheiro assim, deveria a família solicitar a sua inabilitação imediata.

Foi o senhor testar os seus dotes oratórios e galvanizadores de audiência a Vila Velha do Rodão, fazendo-se prazenteiramente acompanhar pelo diretor de um dos principais jornais nacionais, concretamente Afonso Camões do JN, e queixou-se da existência de um “poder oculto”, envolvendo alguns jornalistas. Certamente Afonso Camões, o tal que, quando ainda estava na Lusa, teve o cuidado de o avisar de que estava a ser investigado não faz parte desse grupo.

A sua defesa conseguiu rapidamente proibir o grupo Cofina de publicar notícias (explosivas) recorrendo a elementos do processo. Formalmente está certo, mas há aqui um detalhe a evidenciar. De acordo com o discurso anterior do “não há nada”, seria mais previsível uma acusação de difamação.

Tudo isto cheira tão mal, que nem dá vontade de chegar perto. Não tenho nenhuma simpatia pelo Correio da Manhã, mas o país tem o direito de conhecer os detalhes do modo de vida de um seu ex-primeiro ministro, sobretudo quando eles parecem tão desproporcionados face aos rendimentos previsíveis.

Seria bom e muito higiénico que todos os socialistas sérios tivessem a dignidade de fugirem à abordagem clubística desta vergonha e privilegiassem a primazia dos princípios.

25 outubro 2015

Uma ficção

O PS apresentou-se às eleições em coligação com a CDU e o BE. Foram os mais votados mas sem maioria absoluta. A PAF ficou em segundo lugar e o PNR teve um resultado surpreendente. Passos Coelho diz ao PR que tem um acordo com o PNR para um governo com maioria parlamentar.


O PR, que é Manuel Alegre, não considera esta alternativa e indigita António Costa, como sempre se fez em 40 anos do regime atual. Aproveita para assinalar que dificilmente aceitará um governo onde existam partidos incompatíveis com os seus princípios.

É certo que Manuel Alegre tem uma voz mais bonita do que Cavaco Silva, mas, centrando-nos nos princípios, aqueles que hoje apedrejam Cavaco Silva, que diriam neste cenário hipotético? Criticariam também a atitude de Manuel Alegre, ou aplaudiriam (os meus radicais são mais fofinhos do que os teus)? Neste caso, estão a agir não por princípio, mas por interesse. Não são coerentes, pois não!

PS: Relativamente a este acordo de esquerda, até agora só ouvimos medidas de aumento da despesa pública. Logo que possível, por favor expliquem as parcelas previstas para o outro lado do livro contabilístico.


Imagem do DN

22 outubro 2015

Um novo cartapaço?

Uma das imagens que me ficou gravada da recente campanha foi, durante o debate com P. Coelho, A. Costa ter aberto a pasta e sacado um grande caderno de folhas A3, onde, supostamente, estava tudo rigorosa e completamente demonstrado! Questionado sobre a credibilidade do seu modelo, A. Costa afirmava grave e sentencioso que estava tudo naquele cartapaço, bem calculado e bem justificado por um punhado de sábios.

Quando ouço as concessões feitas para viabilizar o tal governo da esquerda, incluindo a questão da TSU que, independentemente do seu real efeito, era a pedra de toque e a originalidade principal do tal tratado, fico com a ideia de que uma boa parte daquelas folhas sagradas devem estar boas é para ir para o lixo.

Após aceitar tudo o que aceitou, este PS ainda consegue fazer um novo cartapaço científico, ou é: vamos para o governo e logo se verá!


Imagem do JN

19 outubro 2015

Por uma vez

O cenário atual na Síria é extraordinariamente confuso. Temos 4 fações principais no terreno (regime, Estado Islâmico, Curdos e outros rebeldes) e 5 frentes de influência externa (Turquia, Rússia, Irão, Monarquias do Golfo e Ocidente), sem estes atores estarem até agora claramente agregados (por simplificação, até nem separo Ocidente em EUA e Europa…).

A intervenção direta musculada da Rússia veio trazer mais bombas e mais mortes, certamente. Veio também baralhar a visão do conflito para aqueles que gostam de ver as coisas simplificadas, perdoando ou condenando os USA ou a Rússia, conforme a sua simpatia, mas acaba por forçar uma clarificação do que cada um quer mesmo ver no final, resultando dois blocos.

A Rússia e o Irão querem o regime atual e combatem o Estado Islâmico e os outros rebeldes; o Ocidente, Golfo e Turquia querem os outros rebeldes e combatem o Estado Islâmico e o regime.

Independentemente do vencedor final, provavelmente o Estado Islâmico recuará até ao Iraque, que continuará o caos que conhecemos desde há 12 anos, e os curdos poderão ter o mesmo destino de outros levantamentos. Vêm à luta com empenho e valor e, no fim, recuam escorraçados…

Como os outros rebeldes são Al-Qaedas e afins, tenho muitas dúvidas se uma Síria por eles “governada” venha a ser muito diferente da atual Líbia. Com todos os defeitos do regime de Bashar Al Assad é preferível deixá-lo a governar e ir pressionando a mudança do que desestruturar o/outro país.

16 outubro 2015

O país não é um chupa-chupa!

Não têm faltado, por estes dias, excitantes reuniões e surpreendentes evoluções. Só para dar dois exemplos: o PC deixou de ser contra a NATO (o CPPC já desmarcou as manifestações de protesto contra os imperialistas sanguinários?) e o BE deixou de exigir a revisão unilateral da dívida. Para lá de uma tentativa egoísta para salvar a pele de Antónimo de Simesmo Costa, esta “pan-esquerda” pouco mais tem em comum do que a vontade de impedir a direita de governar. Poderá funcionar, mas apenas a curto prazo. Não é cola suficiente para governar o país, que precisa mesmo de ser governado, com rumo, competência e seriedade.

Gostaria de realçar que estou nos 50 anos e a minha principal inquietação não é o risco de a minha futura reforma reduzir 10 ou 20%, ou de vir a trabalhar mais 3 ou 5 anos. Estou preocupado, isso sim, com os meus filhos e todos os demais dos 20 anos, para quem o cenário é assustadoramente negro. Convém recordar que criar empregos e riqueza leva tempo e precisa de empreendedores num ambiente político, fiscal e social estável.

Senhores políticos excitados e sedentos de poder: já chega! Os portugueses que trabalham, querem e precisam de trabalhar exigem que se concentrem no fundamental! Portugal não é um simples chupa-chupa, sobre o qual os senhores disputam o direito de chupar.

15 outubro 2015

Memórias de um violeiro


“A primeira sensação é incómoda: a marcha inexorável do tempo tudo separa da vida e aquela quase é uma quase ruína total e memória perdendo-se. Ausentes as pessoas, as pedras e as madeiras rendem-se ao desabamento tão iminente como inevitável. Adivinhando-o, não há gato ou lagartixa que se atreva a percorrer o que foi outrora um soalho...

13 outubro 2015

Boa viagem na Air France

No passado dia 5, foi notícia a imagem dos dirigentes da Air France em fuga com as camisas rasgadas, depois de serem atacados por empregados furiosos, após estes terem conhecimento de um “plano social”, que incluía a supressão de quase 3000 postos de trabalho.

Os sindicatos lamentam, mas compreendem; ao fim e ao cabo a supressão de postos de trabalho é também uma violência; quem semeia ventos, colhe tempestades, etc.. Consideram a interpelação posteriormente feita pela polícia aos agressores como uma intimidação ao movimento sindical e até fizeram um sketch cómico sobre o assunto que a imagem acima documenta.

Ora bem, eu viajo regularmente, muitas vezes em rotas operadas também pela Air France, e já não me recordo da última vez que entrei num avião deles. Por uma razão simples: escolho a opção viável mais barata e a Air France está sempre fora de preço. Entretanto, a empresa perde dinheiro e afunda-se. Este mundo está a mudar e esta intransigência social não augura nada de bom. Uma parte do último prejuízo foi devido à greve dos pilotos, em contestação contra o desenvolvimento da filial low cost do grupo.

Portanto, podem continuar a ficar chocados, a ironizar e a compreender tudo e mais alguma coisa, mas, se nada mudar, o mais provável é acabarem todos sem camisa.

O bloco que ganhou as eleições?


Atualizei o quadro anterior, que estava com a base numa leitura pré-eleitoral. Nestes dias de grandes evoluções impõe-se uma atualização. Há mais cores. Aparecem por ali uns amarelos, com toda a pinta de temporários. Para já está bem, o fundamental é impedir a direita de governar; no futuro logo se verá.

Esta agregação da tal esquerda, exigindo tantas demãos de pintura, tem efetivamente uma motivação principal: impedir o PSD / CDS de governarem. Com todo o respeito pela democracia representativa, este alinhamento da tal esquerda parece-me colado com cuspo. Se o PC anda há décadas a barafustar contra a NATO, é agora em duas semanas que muda a sua posição? E logo o PC, que não tem muitos genes de evolução no seu ADN!

Nem de propósito, no mesmo dia em que A. Costa garante ao PR que a CDU aceita a manutenção na NATO, o CPPC, seu satélite, anuncia uma manifestação contra as manobras desses imperialistas sanguinários no nosso território. Afinal como é?

O ódio nunca foi conselheiro e esta nova coligação, agregada no ódio à direita é negativa demais para ser séria. Sem esquecer que uma parte significativa do eleitorado do PS não se revê certamente neste aventura. Por favor parem esse senhor antes que ele parta o partido de vez.

Há uma expressão em inglês: “King Maker”, de que desconheço a tradução. Num cenário com duas forças importantes mas não maioritárias, é o apoio do terceiro que vai determinar quem passa – o tal “king maker”. A. Costa ainda não entendeu que está a fazer apenas figura de “king maker”?

12 outubro 2015

Justino Ferreira Couto


Um violeiro da minha terra.

Justino Ferreira Couto
Arcozelo, Vila Nova de Gaia
25/09/1909 - 10/08/2002

O “pai” do meu cavaquinho, um da sua última série de trabalhos em 1985.


Com um agradecimento ao Joaquim Fernandes (V2), quem na altura proporcionou, acompanhou e acarinhou esta sua última empreitada.

E continua

09 outubro 2015

Para lá da Pasokização

Leio que alguns responsáveis do PS estão preocupados com o cenário da “Pasokização” do partido: o seu quase desaparecimento eleitoral por transferência para a extrema-esquerda. Para evitar este cenário grego, há uns jovens turcos a defender um posicionamento do partido mais vincado à esquerda, acompanhando/antecipando a evolução do eleitorado.

Eu acho que aqui há um erro de leitura. Na Europa, a transferência de votos dos partidos tradicionais para os extremos têm como razão principal a prática dos partidos no poder e não a sua ideologia. Por isso, o PS e os outros deveriam olhar prioritariamente para a sua prática: rigor, competência e seriedade, antes de questionarem a cartilha.

Ao subir à tribuna e ao apresentar um discurso próximo do Bloco de Esquerda, o PS acabou por caucionar o extremismo e o populismo do “não à austeridade” sem uma visão responsável das contas públicas. Entre o PS e o BE aparentemente próximos (e esta proximidade é na tribuna, não no programa concreto), uma boa parte do eleitorado escolheu o segundo, até agora não contaminado por más práticas.

Temos, portanto, um fenómeno novo a que chamo “pesseguização”. Consiste em perder eleitorado, mesmo estando numa fácil oposição. Ao tentar, publicamente, ir a jogo em todos os tabuleiros, A. Costa continua a “pesseguizar”…!

07 outubro 2015

The Musical Box

E não é que me faltava este :


Para acrescentar a estes: 


E de certa forma também a estes


Para a caixa de música ficar completa !!

05 outubro 2015

Tudo isto é esquerda…

Possivelmente alguém irá chamar-me besta, estúpido ou ignorante. Irei tentar não insultar ninguém e fugir das etiquetas, até porque, para mim, há muito tempo que os partidos não são campo de afetos ou simpatias. Acho curiosa esta constatação de a “Esquerda” ter ganho. É relativamente habitual que, traçando uma linha de separação entre o PS e o PSD, fiquem mais votos do lado da tal esquerda. Mas qual a coincidência política entre PS, CDU e BE? Menos do que entre o PS e o PSD, sem dúvida. Basta pensar na Europa para verificar que essa “Esquerda” inclui divergências fundamentais significativas.

Para governar, todas as coligações são boas? Que se diria se o PNR tivesse alguns deputados e a PAF os fosse buscar para viabilizar o orçamento ou participarem no governo?! Este aparte serve também para saudar a resistência que o eleitorado tem mostrado à penetração da extrema-direita.

Podemos dizer que o traço comum dessa grande esquerda é a “recusa da austeridade”? Como a aventura Syriza demonstrou, não basta ser contra, é também preciso dinheiro para pagar as contas, os reformados e os funcionários públicos. O PS acha que esse dinheiro chega com uns pozinhos de perlimpimpim no consumo, um modelo que nunca vimos funcionar, a CDU pede nacionalizações e parece que ainda não se conseguiu bem redefinir depois da falência do modelo soviético, o BE começa com a renegociação da dívida e a eventual saída do Euro. Tudo isto é esquerda, tudo isto é fado! E podem chamar-me de direita, mas não é verdade!

01 outubro 2015

Já se terá visto uma guerra assim?

Segundo alguns especialistas, o que agora se chama “Estado Islâmico” tem na sua génese a resistência iraquiana à invasão americana e ao regime posteriormente instalado de influência xiita, que sempre foi ignorado e não reconhecido pelos sunitas. Se bem nos recordamos, os atentados suicidas e outras barbaridades nunca desapareceram do Iraque. A novidade estará agora na “imagem”, na forma cuidada e provocatória como eles divulgam e promovem as suas ações, supostamente com o objetivo de chamar os infleis ao terreno e os derrotarem como os talibãs fizeram no Afeganistão. A pobre Síria foi apanhada como um campo de batalha adicional, na sequência da contestação nascida na sua “primavera”, prontamente confiscada pelas potências regionais. Não faltam inimigos declarados ao EI, mas esta oposição é um pouco desalinhada.

A imagem acima, se bem que não atualizada, a situação é dinâmica, dá uma ideia de como o país está dividido e é disputado entre: o regime de Bashal Al Assad a vermelho; o EI, a preto; os “rebeldes” (principalmente o Al Qaeda local), a verde e os curdos a amarelo. As monarquias sunitas do golfo, mais de que contra o EI etsão contra o regime.

A Turquia é contra o regime e intervém militarmente, um pouco contra o EI e muito contra os curdos. O ocidente é moderadamente contra o regime, intervém principalmente contra o EI e até tenta/tentou ajudar uns “bons rebeldes”. O Irão apoia o regime e intervém contra o EI e um pouco contra os outros rebeldes. A Rússia é a favor do regime e, entrando agora na guerra, diz atacar o EI mas na prática está a atacar os rebeldes geograficamente mais próximos de Damasco (aquela ilha verde em Homs, entre Damasco e a costa).

Para o Irão e a Rússia, o futuro passa pela manutenção do regime, para as monarquias do golfo e a Turquia, passa pela sua deposição, o Ocidente não tem ideias claras… Dá para entender que isto não se resolverá amanhã e, entretanto, as bombas continuam a cair
.

Costa afasta-se de Sócrates


Leio com destaque e realce na crónica da campanha que A. Costa anunciou romper de vez com o PS de J. Sócrates. Não 4 meses nem 4 semanas antes das eleições, mas 4 dias… Terá encontrado um momento de reflexão no bulício desta ponta final para refletir no assunto e tomar tal decisão? Penso que não. Apenas achou que isso lhe trazia votos e, vai daí, “Estamos nessa!”.

Se alguém o convencer que dar duas voltinhas de joelhos ao Santuário de Fátima lhe dará os 10% que faltam… ele já vai a caminho da Cova da Iria!

E aqui está o problema deste A. Costa. Tem uma coluna vertebral pouco definida…

Outra curiosidade: não tenho nenhuma simpatia por Paulo Portas, muito pelo contrário, até tenho bastante antipatia, mas, para isso, pouco me conta a opinião sobre ele dos seus progenitores. Este mundo está mesmo do avesso. No meu tempo, era betinho quem não discordava dos pais; agora temos malta de esquerda a zurzir num político de direita, usando o argumento de este não ter o apoio dos papás…!?


Foto retirada do site do Expresso